29 de dezembro de 2013

O exemplo uruguaio - 2013


MARIO VARGAS LLOSA - O Estado de S.Paulo


Foi muito feliz a revista The Economist ao declarar o Uruguai "o país do ano" e qualificar como admiráveis as duas reformas liberais mais radicais tomadas em 2013 pelo governo do presidente José Mujica: o casamento gay e a legalização e regulamentação da produção, venda e consumo de maconha.
É extraordinário que ambas as medidas, inspiradas na cultura da liberdade, tenham sido adotadas pelo governo de um movimento que, originalmente, não acreditava na democracia, mas na revolução marxista-leninista e no modelo cubano de autoritarismo vertical e de partido único. Desde que subiu ao poder, o presidente Mujica, que em sua juventude foi um guerrilheiro tupamaro, assaltou bancos e passou muitos anos na cadeia, onde foi torturado durante a ditadura militar, tem respeitado escrupulosamente as instituições democráticas - a liberdade da imprensa, a independência dos poderes, a coexistência de partidos políticos e eleições livres - assim como a economia de mercado, a propriedade privada, estimulando os investimentos estrangeiros.
A política desse simpático velhinho estadista, que fala com uma sinceridade insólita num governante, embora isso signifique equivocar-se de vez em quando, vive de maneira muito modesta em sua chácara nos arredores de Montevidéu, e viaja em classe econômica, conferiu ao Uruguai uma imagem de país estável, moderno, livre e seguro, o que lhe permitiu crescer economicamente e avançar na justiça social, estendendo os benefícios da liberdade em todos os campos, e vencendo as pressões de uma minoria recalcitrante da coalizão.
É preciso lembrar que o Uruguai, diferentemente da maior parte dos países latino-americanos, cultiva uma antiga e sólida tradição democrática, a ponto de, quando eu era criança, o pais oriental ser chamado de "a Suíça da América" em razão da força de sua sociedade civil, da firmeza da legalidade e de suas Forças Armadas respeitadoras de governos constitucionais. Além disso, principalmente depois das reformas do "battlismo", que reforçaram o secularismo e criaram uma poderosa classe média, a sociedade uruguaia tinha uma educação de primeiro nível, uma vida cultural muito rica e um civismo equilibrado e harmonioso, invejado por todo o continente.
Lembro de como fiquei impressionado ao conhecer o Uruguai em meados dos anos 60. Um país onde as diferenças econômicas e sociais eram muito menos cruas e extremas do que no restante da América Latina, e no qual a qualidade da imprensa escrita e radiofônica, seus teatros, livrarias, o alto nível do debate político, sua vida universitária, artistas e escritores - e principalmente, o punhado de críticos e a influência que eles exerciam - e a liberdade irrestrita que se respirava em toda parte o aproximavam muito mais aos países europeus mais avançados do que aos seus vizinhos, não parecia um dos nossos. Ali descobri o semanário Marcha, uma das melhores revistas que conheci, e que se tornou para mim desde então uma leitura obrigatória para me pôr a par do que acontecia em toda a América Latina.
Sombras. Entretanto, essa sociedade que dava ao forasteiro a impressão de estar se afastando cada vez mais do Terceiro Mundo e a se aproximar do Primeiro, já naquele tempo começava a deteriorar-se. Porque, apesar de tudo o que de bom acontecia ali, muitos jovens, e alguns não tão jovens, sucumbiam ao fascínio da utopia revolucionária e iniciavam, segundo o modelo cubano, as ações violentas que destruiriam a "democracia burguesa" para substituí-la, não pelo paraíso socialista, mas por uma ditadura militar de direita que lotou os presídios de presos políticos, praticou a tortura e obrigou muitos milhares a se exilar.
A fuga de talentos e dos melhores profissionais, artistas e intelectuais do Uruguai naqueles anos foi proporcionalmente uma das mais cruciais que um país latino-americano jamais experimentou ao longo da história. Entretanto, a tradição democrática e a cultura da legalidade e da liberdade não se eclipsou totalmente naqueles anos de terror. Com a queda da ditadura e o restabelecimento da vida democrática, floresceria novamente, com maior vigor e, diria até, com uma experiência acumulada que educou tanto a direita quanto a esquerda, vacinando-as contra as ilusões de violência do passado.
De outro modo, não teria sido possível que a esquerda radical, que com a Frente Ampla e os tupamaros chegasse ao poder, desse mostras, desde o primeiro momento, de um pragmatismo e espírito realista que permitiu a convivência na diversidade e aprofundou a democracia uruguaia em lugar de pervertê-la. Esse perfil democrático e liberal explica a valentia com que o governo do presidente Mujica autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e converteu o Uruguai no primeiro país do mundo a mudar radicalmente sua política frente ao problema da droga, crucial em toda parte, mas particularmente agudo na América Latina. Trata-se de duas reformas muito profundas e de amplo alcance que, segundo as palavras da Economist, "podem beneficiar o mundo inteiro".
O casamento entre pessoas do mesmo sexo tende a combater um preconceito estúpido e a reparar uma injustiça em razão da qual milhões de pessoas padeceram (e continuam padecendo na atualidade) injustiças e discriminação sistemática, desde a fogueira da inquisição até o cárcere, a perseguição, a marginalização social e violações de toda ordem.
Em relação às drogas, predomina ainda no mundo a ideia de que a repressão é a melhor maneira de enfrentar o problema, embora a experiência tenha demonstrado até o cansaço, que, apesar da enormidade de recursos e esforços investidos em reprimi-la, sua fabricação e consumo continuam aumentando em toda parte, engordando as máfias e a criminalidade associada ao narcotráfico. Nos nossos dias, esse é o principal fator da corrupção que ameaça as novas e antigas democracias e vai enchendo as cidades da América Latina de pistoleiros e cadáveres.
Será bem-sucedida a corajosa experiência uruguaia da legalização da produção e consumo da maconha? Seria muito mais, sem dúvida nenhuma, se a medida não fosse restrita a um único país (e não fosse tão estatista), mas compreendesse um acordo internacional do qual participassem tanto os países produtores como os consumidores. Mas, mesmo assim, a medida afetará os traficantes e portanto a criminalidade derivada do consumo ilegal, e demonstrará com o tempo que a legalização não aumenta notoriamente o consumo, apenas num primeiro momento, embora, desaparecido o tabu que costuma prestigiar a droga junto aos jovens, tenda a reduzi-lo.
O importante é que a legalização seja acompanhada de campanhas educativas - como as que combatem o tabagismo ou explicam os efeitos prejudiciais do álcool - e de reabilitação, de modo que quem fuma maconha o faça com perfeita consciência dos que fazem, como ocorre hoje em dia, os que fumam tabaco ou bebem álcool. A liberdade tem seus riscos, e os que creem nela devem estar dispostos a corrê-los em todos os campos, não apenas no cultural, no religioso e no político. Foi o que entendeu o governo uruguaio, e devemos aplaudi-lo por isto. Esperemos que outros aprendam a lição e sigam seu exemplo. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

9 de outubro de 2013

Terapia usa literatura para tratar males da mente e da alma



“O psiquiatra identifica qual doença aflige o paciente e prescreve o livro específico para o tratamento. Com a receita em mãos, o doente vai até a biblioteca mais próxima e pega emprestada a obra sugerida”. Parece ficção, mas é a Biblioterapia, uma prática adotada este ano pelo governo da Inglaterra como política pública de saúde.


Acorda Brasil!
A técnica começou a ser difundida em larga escala na terra da rainha pela Reading Agency (Agência de Leitura), entidade responsável por mostrar os benefícios terapêuticos da biblioterapia. E até mesmo universidades como a de Sussex, através de pesquisas, já comprovaram a eficácia das palavras como bálsamo curativo.
A biblioterapia vem sendo usada para tratar depressão, crises de ansiedade, bulimia e uma série de outros transtornos, somando 17 males da mente e da alma para o qual o livro certo tem a solução. Ou ao menos, é um coadjuvante valioso no tratamento.
De livros técnicos que explicam em linguagem simples ao paciente o que ele tem, ajudando na conscientização, até obras de ficção, passando ainda por histórias reais e edificantes, a biblioterapia busca incentivar uma reflexão mais profunda sobre a vida e até incentivar mudanças de postura. Parece autoajuda, mas é ainda melhor!
Os livros são indicados levando em conta o estado emocional do paciente e é lógico que aqueles mais densos e com finais trágicos não entram na lista dos indicados.
No Brasil, técnica semelhante é usada há 15 anos na ala pediátrica do Hospital São Lucas, pertencente à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Nessa unidade de saúde, equipes multidisciplinares escolhem livros interessantes e organizam discussões sobre o conteúdo com a criançada, desviando o foco delas do tratamento médico.
Mas nem só pessoas com transtornos psíquicos ou crianças hospitalizadas são beneficiadas. A técnica também ajuda a prevenir e até atenuar lapsos de memória em idosos. Já existem inclusive trabalhos mundo afora que usam contos de fadas para ajudar os velhinhos a resgatar memórias da infância e juventude.
Está doente? Leia um livro!
*Com informações da reportagem “Livro, um santo remédio pra cabeça”, publicada na edição de setembro (número 368) da revista Saúde.

Desenhos e rascunhos de Guillermo Del Toro são reunidos em livro



O mexicano Guillermo Del Toro, de pérolas como O Labirinto do Fauno e do celebrado Hellboy, é também exímio desenhista.

 E esse outro lado do diretor, roteirista e produtor será conhecido do público mundial a partir de 29 de outubro, quando chega ao mercado internacional o livro Gillhermo Del Toro Cabinet of Curiosities: My Notebooks, Collections, And Other Obsessions (Guillermo Del Toro Gabinete de Curiosidades: Meus Cadernos, Coleções e Outras Obsessões, em tradução livre). 

Sem previsão de ser lançado no Brasil, o volume reúne rascunhos que dão ideia aos fãs dos filmes de Del Toro da riqueza do mundo imaginativo do diretor. Veja algumas páginas e a capa da publicação: 




Reprodução do site : http://literatura.atarde.uol.com.br/

10 de julho de 2013

Navegar é preciso, viver não é preciso



























 No mundo das letras, sabemos que o processo criativo nem sempre se encerra na mente geniosa de um escritor capaz de gerar um mundo completamente isento da realidade que o cerca. Cada vez mais, estudiosos vem detectando que vários romances, contos, poemas e canções se mostram ricamente contaminados pelos valores de seu tempo. Em alguns casos, ainda é possível ver que o processo criativo também abraça referências históricas bastante remotas em relação ao tempo em que vive o autor.

Ao falarmos que “navegar é preciso, viver não é preciso”, alguns logo citam a genialidade do escritor português, Fernando Pessoa. Indo um pouco mais adiante sobre o estudo dessa frase, aponta este que, o poeta ao mesmo tempo em que lançava uma sentença sobre a condição do homem, dialogava ricamente com a tradição histórica dos portugueses na exploração dos mares. Contudo, devemos saber que essa interpretação está longe de remontar as origens da afamada frase.

No século I a.C., os romanos viviam ativamente o seu processo de expansão econômica e territorial. Na medida em que Roma se transformava em um império de dimensões gigantescas, a necessidade de desbravar os mares, se colocava como elemento fundamental para o fortalecimento de uma das mais importantes potências de toda a Antiguidade. Foi nesse contexto que o general Pompeu, por volta de 70 a.C., foi incumbido da missão de transportar o trigo das províncias para a cidade de Roma.

Naqueles tempos, os riscos de navegação eram grandes, em virtude das limitações tecnológicas e dos vários ataques piratas que aconteciam com relativa frequência. Sendo assim, os tripulantes daquela viagem viviam um grave dilema: salvar a cidade de Roma da grave crise de abastecimento causada por uma rebelião de escravos, ou fugir dos riscos da viagem mantendo-se confortáveis na cidade de Sicília. Foi então que, de acordo com o historiador Plutarco, o general Pompeu proferiu essa lendária frase.

De fato, a afirmação do general Pompeu surtiu bons frutos. A viagem foi realizada com sucesso e o militar ascendeu ao posto de cônsul com amplo apoio das camadas populares romanas. Pouco tempo depois, esse mesmo prestígio o fez ser um dos integrantes do Primeiro Triunvirato que governou todo o território romano.


 Afinal, será que foi a vitória da história de Pompeu que levou o lendário escritor português a tomar empréstimo dessa instigante sentença? Quem sabe!









19 de abril de 2013

A Carne de Elza Soares



Um dia desses, voltando para casa, acabei sintonizando uma rádio que me pareceu ainda estar em  testes - Rádio Brasil Atual . Eles tocavam  Elza Soares. Fica aqui minha homenagem ...




13 de abril de 2013

Como seria a vida evoluída em outros planetas do Sistema Solar


Como imaginado em 1940!

Desde que nos demos conta de que vivemos em um planeta que orbita uma estrela comum e que essa estrela é só uma entre bilhões de outras estrelas na nossa galáxia e que a nossa própria galáxia é só mais uma entre bilhões e bilhões de outras galáxias, imaginamos como a vida teria se desenvolvido em outros planetas. Em 1940, quando a ciência astronômica e nossos telescópios eram bem menos desenvolvidos, o ilustrador Frank Rudolph Paul à luz das ideias de escritores de ficção científica como Ray Bradbury, Forrest Ackerman e Arthur Clarke, deu asas à sua imaginação para "bolar" como seriam os seres viventes de outros planetas e luas do nosso próprio Sistema Solar. Seriam ameaçadores ou pacíficos?  Robôs ou criaturas orgânicas? Evoluídos ou primitivos? Como seria o seu meio ambiente nativo e como o homem reagiria ao encontrar tais seres? Através da sua vibrante e colorida arte, Frank R. Paul tentou responder à algumas destas questões. Tomei a liberdade de adicionar alguns comentários de minha parte mostrando qual o real cenário destes mundos segundo os nossos conhecimentos atuais, contrastando com as ideias do autor das ilustrações. Então aperte os cintos e vamos viajar ao Sistema Solar mais fecundo e diversificado do universo, o Sistema Solar de Frank Rudolph Paul!





Vida em Io (Lua de Júpiter): Teoricamente, criaturas como esta poderiam habitar este satélite. Io tem um diâmetro de 3.618 metros e uma rarefeita, mas respirável atmosfera.


Vida em Urano: O habitante de Urano vive em um ambiente rigoroso de fato. Tem de se confrontar com uma gravidade incrivelmente forte, uma atmosfera densa, gases venenosos e grandes tempestades.


Vida em Júpiter: Os habitantes de Júpiter tem de ser grandes e tremendamente fortes para suportar a enorme gravidade deste planeta gigante. Eles provavelmente teriam um jeito desengonçado de locomoção, já que devido à enorme gravidade, se manter de pé com pernas longas seria impossível. Um terráqueo necessitaria de um trator para se locomover por lá.


Vida em Saturno: A vida em saturno evoluiria tal como insetos. Com corpos leves, tais como aranhas se locomovendo por pântanos com uma superfície instável.



Vida em Mercúrio: Mercúrio fica perigosamente próximo do Sol. É um planeta terrivelmente quente. A vida, segundo a ciência, poderia existir sob a forma de insetos.


Vida em Netuno: O homem de Netuno viveria em um mundo de extrema densidade e forçado a lutar contra um meio ambiente cruel. Tremenda gravidade, superfície instável provavelmente líquida com algumas porções de terra e uma atmosfera incrivelmente densa.


O homem de Vênus: A concepção científica da vida em nosso vizinho mais próximo. A ciência diz que Vênus é o planeta irmão da Terra e formas humanas de vida são mais prováveis de existir por lá do que em qualquer outro planeta.


Vida em Plutão: Este mundo é frio e em eterna penumbra e seria provavelmente habitado por humanoides-morcego com uma pele extremamente protetora contra o frio.


O Homem de Marte: Aterrissando de nossa nave espacial como nossas roupas pressurizadas nós saudaríamos o homem marciano que se aproxima. Ele é um homem realmente estranho, que evoluiu muito diferente de nós porque Marte é um planeta com cerca de metade do Tamanho da Terra, com menos gravidade, uma atmosfera rarefeita e extremos de frio e calor. Ele tem grandes orelhas para escutar os sons enfraquecidos pela atmosfera pouco densa e se comunicaria com os seus por telepatia usando suas antenas. Ele seria alto, andando com pés em forma de ventosa que o ajudariam a permanecer no chão. Ele teria pulmões super desenvolvidos, corpo leve, olhos e nariz retráteis para protegê-los do frio, seu corpo seria protegido por roupas especiais e sua pele proveria proteção adicional contra o frio. Como as criaturas mais avançadas do Sistema Solar, carregariam junto a si um rifle atômico, resultado de grande conhecimento científico.

17 de fevereiro de 2013

Editora sob demanda: a maldição literária.



Por Ghost Writer.


Hoje venho realizar uma triste tarefa, que eu esperava jamais ter que fazê-la. Só quero esclarecer que o faço, não por ser recalcado, como muitos deduzirão, mas sim para alertar escritores iniciantes para que não caiam na mesma cilada que eu. Essa cilada chama-se “Editoras sob demanda”, uma em especial que foi a que me ludibriou, mas por conhecer muito bem a índole do editor não revelarei o nome, e chamarei aqui de “Editora X”e acredito que quem é “do meio” saberá de qual se trata mesmo sem que eu revele o nome.
Deixe-me contar como tudo começou: cena comum, terminei meu livro e como muitos autores sonhadores, comecei a buscar uma editora que se interessasse pelo meu trabalho. Encontrei algumas que ofereciam oportunidades para anônimos como eu, dentre elas a “Editora X” e enviei meu original. Em pouquíssimo tempo o editor chefe me procurou, dizendo maravilhas do meu livro e me oferecendo uma oportunidade. Era tudo o que precisava ouvir, é tudo o que todo autor quer ouvir, que seu trabalho é único, perfeito, maravilhoso e que vai vender horrores, bastando para isso, que você invista uma ínfima quantidade de dinheiro. Caí na conversa mole dele e pedi que me enviasse o orçamento. Tão logo recebi o orçamento, vi que a quantia não era tão ínfima assim. Ele apresentou-me duas propostas:
- Na primeira, eu concordaria em comprar 500 exemplares do livro pela metade do preço final, algo que ficaria em torno de R$ 9.000,00.  
- Na segunda, eu pagaria os serviços de editoração, que remontaria a aproximadamente R$ 5000,00, que cobririam os serviços de revisão, diagramação, capa e assistência editorial e se eu quisesse (preste muita atenção nessa parte!) eu poderia comprar quantos exemplares me aprouvesse depois para revender.
Pensei, repensei, fiz as contas e decidi optar pela segunda opção. Não ganho muito, tenho um emprego onde recebo mensalmente o equivalente a dois salários mínimos, mas acreditei que poderia arcar com esses custos. Afinal, tratava-se de um sonho, e um sonho não tem preço, não é mesmo? Fiz um empréstimo pessoal no banco, o qual levaria cerca de 3 anos para pagar, mas conforme as ilusões que ele me vendera, eu acreditava que valeria a pena, pois seria uma questão de tempo até meu trabalho ser reconhecido e eu recuperar todo esse investimento.
Acompanhei o processo do livro com entusiasmo, desde a apresentação da capa (lindíssima), até a revisão e diagramação, era sempre uma enorme alegria acompanhar aquele meu sonho “tomando forma”. Entretanto, pouco antes de o livro finalmente ir para a gráfica, veio a minha primeira surpresa: eis que o senhor editor me liga para informar que eu precisaria comprar 300 exemplares do meu livro antecipadamente ou meu livro não iria para a gráfica porque ele não tinha o dinheiro para pagar a impressão. Sim, isso mesmo que você leu! Quer dizer que após ter investido R$ 5000,00 (que eu não tinha) eu estava correndo o risco de não ver meu sonho se concretizar, sem falar que até então eu ainda não tinha resultado algum, pois o livro de fato ainda não estava pronto, eu havia pago R$ 5000,00 por serviços “virtuais”! E o pior, acabei gastando os mesmo R$ 9000,00 previamente propostos, mas agora ficaria com apenas 300 exemplares em mãos, ao invés de 500.
Entrei em desespero e o meu lindo sonho naquele momento já começava a se transformar em pesadelo. De onde eu tiraria os novos R$ 4000,00 que ele agora me exigia? Em compensação, se eu não levantasse esse dinheiro, perderia os R$ 5000,00 já investidos, sem falar na vergonha de encarar todos os meus amigos e parentes que já aguardavam ansiosamente o lançamento do livro e acompanhavam cada etapa desse processo. Novamente recorri ao banco e a minha dívida, que antes levaria 3 anos para ser paga, foi prorrogada para 5 anos, além de que a parcela do empréstimo começou a comprometer seriamente meus rendimentos, de modo que precisei começar a me privar de certos confortos para poder honrar as minhas dívidas. Dessa forma, eu já não saía nem viajava mais, tinha que contar moedas até para pedir uma pizza!
De toda forma, paguei à “Editora X” os R$ 4000,00 e aguardei ansioso pelo dia em que finalmente teria meu livro pronto nas mãos. Ah, mas outra odisseia me aguardava! Após decorridos alguns dias da data prevista para a entrega dos livros em minha casa, entrei em contato com a referida editora para saber o motivo do atraso e fui “gentilmente” informado pelo editor que como eu não pagara o frete de entrega, deveria dar um jeito de retirar os livros na gráfica. Observação: ele havia me falado que o frete seria grátis!
Meu livro ainda nem havia saído e eu já me defrontava com mais um problema: Como iria retirar esses malditos livros na gráfica? A gráfica fica em São Paulo e eu moro relativamente longe de lá. Além disso, não possuo carro, como faria isso? A transportadora queria me cobrar algo em torno de R$ 400,00 para fazer essa entrega e meu Deus, eu não tinha esse dinheiro!
Graças aos céus, consegui um tio que se prontificou a me levar até lá para pegar os livros e só me cobrou o preço da gasolina e do pedágio. Afinal, tinha o livro em minhas mãos! Ah, era como carregar um filho, e tudo naquele momento mágico pareceu valer a pena! Mas ainda aconteceria outra coisa que estragaria esse momento idílico: a noite de lançamento do meu livro. Ele ficou de me ajudar ou pelo menos indicar onde eu poderia realizá-la, mas apesar de meus constantes telefonemas, nada disso aconteceu e eu tive que me virar sozinho. Com a ajuda de amigos e familiares, consegui finalmente organizar a noite de lançamento e tudo correu bem.
Logo comecei a divulgar o livro nas redes sociais e acabei conhecendo alguns colegas de editora, nos aproximamos e começamos “a trocar figurinha” e a cada nova história, eu ficava mais e mais indignado.
Um dos meus colegas, contou que ao receber a nota fiscal dos 200 livros que comprou, percebeu que o valor que ele havia pago à editora pelos 200 exemplares foi o custo total da impressão dos 1500 exemplares dele! Ou seja, ele pagou por  1500 exemplares e só recebeu 200! Explico: ele pagou R$ 15,00 o exemplar, ou seja, no total R$ 3000,00 e a editora, pagou à gráfica míseros R$ 2,00 por exemplar, ou seja, no total, R$ 3000,00! Detalhe: esse meu colega já havia pago à parte, assim como eu, os demais serviços editoriais.
Outro colega, contou que descobriu que a gráfica imprimiu apenas os 400 exemplares que ele encomendou e não os 1500 previstos no contrato e dos quais a editora deveria ficar com 900 para vender, ou seja, só existiam “no mercado”, os 400 exemplares que estavam em suas mãos...
Além disso, tive a oportunidade de conhecer uma revisora e um capista que realizam trabalho para a “Editora X” e eles me contaram que a editora paga apenas R$ 2,00 por página para o revisor, sendo que dos autores ela cobra R$ 5,00! Com o capista, ocorre o mesmo, ele recebe em torno de R$ 500,00 por uma capa e a editora cobra do autor algo em torno de R$ 1000,00! Ah, e nem falemos da diagramação, que é feita pela esposa do editor e que contém inúmeros erros, no livro de uma colega ela separou a palavra “mulher” assim: mul-her (?)Essa diagramação é cobrada por página, saindo em torno de R$ 6,00. Agora você soma esse valor com o número de páginas de um livro. Somou? Então, é esse o valor absurdo! Isso sem contar que uma colega entrou em contato com uma diagramadora e descobriu que geralmente esse trabalho é cobrado por número de caracteres do texto e não por página. Daí você percebe que a maioria dos livros da editora são no formato 14X21, sendo que muitos deles poderiam (ou deveriam) sair no formato 16X23. Tudo isso faz com que o número de páginas seja maior e consecutivamente o valor da diagramação aumenta.

Além desses incidentes, passei a ter mais contato com as obras da editora e comecei a ter vergonha por ver tanto material de qualidade no mínimo “duvidosa” ser publicado, sem ao menos ser editada ou minimamente revisada e comecei a questionar se o editor realmente avalia alguma coisa ou só se interessa pelo dinheiro de pobres coitados sonhadores como eu.
Sobre a revisão da referida editora, quero fazer uma ressalva: Uma colega contou que sugeriu ao editor, até para economizar um pouco, que ela poderia pedir a um amigo que revisasse o livro pra ela, mas o Léo disse que não confiava em ninguém “de fora” para revisar seus livros, pois tinha profissionais “altamente capacitados” para tal trabalho. Altamente capacitados? Você chamaria de altamente capacitado um revisor que deixa escapar coisas como “remorço”, “possa d’ água” e afins? Ou coloca crase antes da palavra “ele”? Isso sem contar que muitos alteram o texto do autor para pior, criando erros antes inexistentes, sendo encontradas palavras erradas, erros de digitação e incoerência. Recentemente, uma colega teve seu livro revisado por tais “profissionais altamente capacitados” e precisou arrumar os erros que o revisor fez em sua obra, necessitando assim de outro revisor e muito mais trabalho em cima de um texto que deveria estar impecável.
Sobre os livros que são séries, há também complicações. O senhor editor pressiona os autores que possuem séries antes mesmo da primeira obra completar um ano de publicação. Ele diz que não fará a segunda edição do primeiro livro se o escritor não assinar com ele a continuação. O autor, que sequer recuperou o dinheiro investido na primeira obra, se vê obrigado a gastar novamente tal absurdo caso queira continuar com seu trabalho. E o editor não quer saber se o autor terminou ou não a continuação!
Mas o fim da picada mesmo aconteceu quando o livro de uma colega “vazou” na internet. A editora havia disponibilizado o livro dela para venda em formato ebook e dias depois, o livro estava disponível para download gratuito na internet, em formato PDF. Quando ela descobriu e tentou entrar em contato com a editora, descobriu que a mesma estava “em férias coletivas” e que só conseguiria obter resposta dali a 15 dias! Após muita insistência, o editor respondeu em e-mail, dizendo que o formato disponível para download não era o mesmo disponibilizado pela editora, de forma que o livro deve ter “vazado” por meio dela mesma e que por isso, caberia a ela tomar as providências necessárias! Tipo: foda-se! 
Pelo menos três colegas meus mergulharam em estado depressivo após todos esses fatos e dois deles chegaram a perder o emprego, por verem o que deveria ser um lindo sonho, transformar-se num terrível pesadelo, graças a esse explorador inescrupuloso, destruidor de esperanças alheias, o senhor editor, que prometeu a eles mundos e fundos, para conseguir aproveitar-se o máximo dessas pessoas, arrancando-lhes até o último centavo e fio de dignidade que possuíam. 
Nenhum deles teve coragem de denunciar tais abusos por medo de represálias, pois o referido editor, ao ser contrariado minimamente, tira os livros dos escritores “de circulação” com a desculpa torpe de que os livros “se esgotaram”, e nenhum dos autores recebeu o relatório de venda de suas obras. Ninguém sabe se o editor realmente vende os livros que diz imprimir ou simplesmente some com o nosso dinheiro e o usa para comprar títulos estrangeiros ou para custear os custos de publicação dos livros dele, obras as quais ele tem a petulância de publicar em russo, mesmo eles sendo simplesmente terríveis. Olhem para o catálogo deles e vejam quantos autores deixaram a editora. Será coincidência?
Agora a editora lança uma campanha de doação de sangue e sai como a boa samaritana da história, sendo elogiada em blogues, sites e revistas pela atitude. Mal sabem as pessoas que eles realmente “querem o seu sangue” e farão de tudo para sugar até a última gota de vida.
Como disse, muitos não tiveram coragem de gritar ao mundo e denunciar tal editora mas eu, nada mais tenho a perder, pois o que resta a um homem cujos sonhos foram destroçados? Mais nada.

Agradecemos a Ghost Writer pela colaboração e informamos que nosso blog está aberto para toda denúncia relacionada ao meio literário.A pergunta que não quer calar: que editorazinha seria essa?


Reprodução do site : http://litfanbr.blogspot.com.br/2013/02/editora-sob-demanda-maldicao-literaria.html

5 de fevereiro de 2013

Ler sempre, mas com método



“Exercício de vontade. – Ler com método, tomando notas e pondo em ordem, por escrito, as impressões. Escrever, escrever sempre, todos os dias, escrever mesmo banalidades, não para publicar, mas como quem pratica um ofício, com a finalidade de pesquisar os processos da forma. Muitos dos nossos estudos e leituras são mal aproveitados por falta de método. Voltar a ler certos autores fundamentais como Bergson e Proust, com o lápis na mão e o caderno nas pernas. Dominar a preguiça, sufocar o gosto das evasões para livros mais agradáveis porque mais fáceis; não deixar-se vencer pelo simples prazer da leitura como um diletante.”


São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos(org. de Eduardo Cesar Maia)