26 de fevereiro de 2017

" Amo o Carnaval ! " por Leandro Karnal





Só danço para acasalamento e, ainda assim, de forma pouco graciosa. Isso ajuda a explicar a escassez de acasalamentos recentes. Só bebo vinho tinto e minha resistência limita-se a duas taças. Tenho dificuldades em me alcoolizar. Uma noitada em claro hoje, para mim, é um sofrimento. A farra estraga o dia seguinte, o corpo se ressente, a mente fica turvada. Amo o carnaval. Contradição?
As estradas lotam. Os hotéis inflacionam suas tarifas. Locais paradisíacos ficam mais próximos do inferno com uma multidão de foliões. Uma vez, na mágica Olinda, um guia me disse que as casas alugadas no carnaval eram tomadas por blocos ao amanhecer. Os invasores despertavam foliões que tivessem ousado dormir. Eu pensei: “E alguém paga para isso?”. Amo o carnaval. 
A televisão mostra desfiles intermináveis. O impacto visual é grandioso. Os corpos são perfeitos, o samba toca com o ritmo das batidas cardíacas e a criatividade é intensa. Porém, para um não especialista como eu, há uma semelhança notável nos desfiles de todos os anos. Olho para aquilo com o tom que um aluno, há muitos anos, analisou uma série de cantos gregorianos que usei para ilustrar uma aula sobre a Idade Média: “Professor, é tudo igual!” Sei que ele, não distinguindo modos (dórico, frígio, etc.) e não percebendo cadências do cantochão, só poderia ver linearidade repetitiva. Provavelmente, minha ignorância sobre samba produz algo similar. Amo o carnaval. 
Afinal, o que ama em uma festa alguém que acaba de dizer que não gosta de quase nada dela? Amo isso que eu e você estamos fazendo, caro leitor e querida leitora. Amo este domingo mais livre, com a cidade quase despovoada, com uma paz intensa que permite ler seu Estadão em papel ou na tela com uma tranquilidade distinta do usual. Amo esta pasmaceira de feriado, ir ao cinema, adentrar restaurantes ermos, andar pela cidade de São Paulo com sua humanidade restaurada e árvores que farfalham livres do tsunami humano. Amo o carnaval.
São Paulo foi tomada de uma solene alegria silenciosa. Claro que há carnavalescos aqui, que o digam pessoas da Vila Madalena ou próximas a escolas de samba. Mas, como um todo, temos uma espécie de Nova York do filme/livro Eu Sou a Lenda. Na obra, a personagem central vaga por uma metrópole deserta na qual ele é o senhor, ao menos durante o dia. Faltam apenas aqueles arbustos secos dos filmes de faroeste clássicos, rolados pelo vento em meio ao nada, para caracterizar a desolação maravilhosa. 
Detesto aqueles intelectuais tradicionais que torcem o nariz para o samba. Poucas coisas são tão vivas e criativas como nosso samba. É uma festa para os olhos ver um casal sabendo sambar e o fazendo com entusiasmo. A vida exsuda por todos os poros. Admiro toda pessoa que dança com vitalidade. Minha inépcia patética na arte não invalida nada, pelo contrário, destaca que não basta querer para ter desenvoltura. 
Atendidos aos justos reclames dos filhos de Momo que poderiam se sentir desprezados pela minha distância, volto ao meu refúgio: São Paulo no carnaval. Como combinar duas coisas excludentes? A força da cidade grande (com sua variedade de cinemas, teatros e restaurantes) com a paz da cidade pequena? Como fazer a vida ser menos estressante sem que seja monótona? Como viver sem tédio? Como ser metraldeia (metrópole com aldeia) ou vilalópole (vilarejo com metrópole)? Pois bem: esta é São Paulo no carnaval. Cruza-se o melhor de dois mundos. A vida sem filas é a vida de verdade. 
Os jornais foram lidos com vagar e prazer. Cada refeição ganhou foro de festa de Babette. Toquei Bach ontem e cada nota pareceu ecoar na sala de forma mais sofisticada do que a singeleza do meu piano e o limite do meu talento pareceriam indicar. Abri um vinho das encostas do Ródano com referência aos papas que lá moraram. Fui ao cinema. Li muito, muito mesmo. Estudei um tema complexo para minhas aulas e tomei notas por horas. Comprei coisas no super como quem frequenta o Gran Bazar de Istambul, olhando o colorido, conversando, tomando ameixas por turquesas e rabanetes por rubis. Só existe imaginação quando o tempo flui sem controle e o meu relógio entrou em coma na sexta. Ainda é domingo e a felicidade já é intensa. Há endorfinas em excesso até a Quarta de Cinzas. Amo muito, intensamente, apaixonadamente, o feriado de carnaval.

Discorda? Pegou a estrada? Está no litoral, em um clube com marchinhas ou sendo despertado em Olinda? Parabéns. Continue assim. Convença mais gente da alegria disso e, nos próximos anos, aumente o êxodo. Eu continuarei aqui, tão feliz que, confesso, tenho vontade de uivar para a Lua esta noite. Não haverá problema: a alcateia está longe. Quarta tem Quaresma e gente voltando. Até lá ouço a cantata do silêncio e, talvez, dance um pouco, só para acasalar. Bom domingo a todos vocês!
http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,amo-carnaval,70001679176

20 de fevereiro de 2017

Resenha de Manhã de Sol Florida, Cheia de Coisas Maravilhosas, blog Loucura por leituras.








Resenha: Manhã de sol florida, cheia de coisas maravilhosas
"Montevidéu, outono de 1977. O uruguaio Miguel Martinez consegue realizar, ainda que tardiamente, o sonho de menino - o de conhecer o Rio de Janeiro. Contudo, não poderia imaginar o quão sem graça poderia ser viver na cidade maravilhosa, até encontrar Ana Clara Pernambuco - repórter do Diário de Notícias e responsável pela ONG Babilônia Azul, numa das maiores favelas cariocas. Morando num país periférico, belo e exótico, porém esquecido e marginalizado pela ditadura militar dos anos 70, Ana Clara o envolverá numa arriscada investigação sobre a indústria de bebidas."

Autor: Alécio Faria
Gênero: Drama
Número de páginas: 160
Data de publicação: 2016
Informações adicionais: livro lido em versão digital.
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Aventura embalada ao ritmo de Tim Maia


Miguel Martinez sempre sonhou em conhecer o Rio de Janeiro. Como é comum acontecer com estrangeiros, ele ouviu falar tudo de bom sobre a cidade e acha que o Rio é um paraíso. Nascido em Montevidéu, ele passou de simples operário da Unión Refrescos a intérprete da empresa, graças à sua paixão pelo Brasil que o levou a aprender a falar Português. A Unión Refrescos já foi uma grande produtora de refrigerantes, mas está em decadência e atualmente apenas embala os produtos, que são fabricados realmente por uma grande companhia americana, a América Refrescos. O processo é realizado em partes, e o trabalho é subdividido entre sucursais da própria América e empresas menores, entre elas a Unión Refrescos, no Uruguai.
Inesperadamente, Miguel é transferido para a sucursal brasileira da América Refrescos, e passa a trabalhar no setor de contabilidade da empresa. A princípio empolgado com a mudança para o Rio de Janeiro, Miguel acaba se desiludindo bastante. A cidade era quente demais, a rotina no trabalho era monótona, e a natureza introspectiva de Miguel não agrada aos brasileiros que ele conhece, que o consideram exibido por ser estrangeiro. Logo ele passa a viver uma vida tão sem graça quanto a que tinha na sua cidade natal, porém agora, sentindo falta de Montevidéu.
Tudo muda quando ele conhece Ana Clara Pernambuco, uma  jovem e dedicada estudante de Jornalismo. Mesmo que a primeira impressão que ele tenha tido dela não fosse das melhores, logo ele se encanta por sua personalidade e pelas coisas com as quais ela se envolve, como o trabalho voluntário na ONG Babilônia Azul, que presta assistência aos moradores da favela da Babilônia.
Em seu trabalho, Miguel começa a perceber indícios de fraudes realizadas pela América Refrescos. Quando a empresa anuncia uma grande mudança em seu processo de trabalho, Ana Clara inicia uma investigação profunda sobre possíveis crimes ambientais que podem estar sendo cometidos na produção dos refrigerantes e outras bebidas da América Refrescos. A empresa, porém, tem ligações com a ditadura militar que domina o Brasil, e a busca por informações pode colocar em risco as vidas de Ana Clara e Miguel.

Imagem compartilhada no meu Instagram durante a leitura.
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"Da janela do antigo apartamento, admirava o realidade como paisagem,
antes que a paisagem, ilimitada aos seus limites inviolados,
batesse a sua porta."

O história é narrada em terceira pessoa e dividida em capítulos de tamanho pequeno. Por ser um livro curto, aliás, é uma história rápida de ser ler, apesar de seguir um ritmo um tanto lento. Quando a narrativa se acelera um pouco, os acontecimentos são oferecidos com poucos detalhes, o que encurta a história. O recurso do flashback é usado para explicar algumas situações ou contar histórias de pessoas que fazem parte do convívio de Miguel.
Miguel é um homem calado e solitário, cheio de manias, com poucos amigos, e com dificuldades para se relacionar com outras pessoas, que passa o tempo escrevendo em seu diário e ouvindo os discos de Tim Maia. Ele descobriu o cantor enquanto vivia no Rio e se encantou com o ritmo e as letras das músicas. O título do livro, aliás, é uma referência à música de Tim Maia Manhã de sol florida cheia de coisas maravilhosas, a qual eu não conhecia. Sempre ouvi Tim Maia graças à influência do meu pai, e adorei ver tantas referências a ele no livro. Conhecer a música que deu origem ao título também foi um grande prazer.
Ana Clara não tem nada em comum com Miguel, então acho que podemos dizer que esse é um caso de opostos que se atraem. Curiosa, falante, cheia de energia, ela está sempre em movimento, sempre ocupada com alguma coisa. É muito inteligente e tem muita dedicação ao Jornalismo, por isso, ao saber por Miguel que havia algo estranho nas contas da América Refrescos, ela decide investigar, ao invés de só "deixar pra lá", que era a intenção dele.
Apesar das diferenças entre os dois, o romance entre acaba sendo muito natural. Quando finalmente aconteceu, eu me vi comemorando!
Por ser uma história ambientada nos tempos da ditadura, Manhã de sol florida contém certos trechos bastante violentos e fortes, com descrições de torturas. Nada disso, porém, é desnecessário, pois faz parte do desenrolar da trama envolvendo a empresa em que Miguel trabalha.
A investigação e Ana Clara revela coisas segredos muito perigosos guardados pela empresa, mas isso não é tudo. Miguel ainda virá a descobrir mais, posteriormente. O final é bastante surpreendente, e com certeza vai agradar leitores que, assim como eu, simpatizem com o casal.
Como ponto positivo, destaco o fato de o livro ter no final uma espécie de bibliografia, explicando de onde vieram informações e fatos que fazem parte da história, bem como o que constituiu a pesquisa do autor.
Eu acredito que um único aspecto negativo foi o fato de o autor ter escrito uma história tão curta. A temática é muito interessante, assim como a época escolhida para a ambientação. Acredito que partes da história poderiam ter sido mais detalhadas, o que proporcionaria mais envolvimento por parte do leitor e facilitaria o entendimento da trama evolvendo a indústria de bebidas.
Recomendo o livro para quem esteja à procura de uma leitura leve e cheia de reflexões, sem deixar de conter ação e suspense.


http://loucura-por-leituras.blogspot.com.br/2017/02/resenha-manha-de-sol-florida-cheia-de-coisas-maravilhosas.html
Avaliação de leitura:

18 de fevereiro de 2017

Porque hoje é sábado, mais um poema do Maestro Mario Benedetti : " Artigas "





Se las arregló para ser contemporáneo de quienes nacieron
medio siglo después de su muerte
creó una justicia natural para negros zambos indios y
criollos pobres
tuvo pupila suficiente como para meterse en camisa de once
varas
y cojones como para no echarle la culpa a los otros

así y todo pudo articularnos un destino
inventó el éxodo esa última y seca prerrogativa del albedrío

tres años antes que naciera marx
y ciento cincuenta antes de que roñosos diputados la
convirtieran en otro expediente demorado
borroneó una reforma agraria que aún no ha conseguido el
homenaje catastral

lo abandonaron lo jodieron lo etiquetaron
pero no fue por eso que se quedó para siempre en tierra
extraña
por algo nadie quiere hurgar en su silencio de viejo firme
no fue tosco como lavalleja ni despótico como oribe ni astuto
como rivera
fue sencillamente un tipo que caminó delante de su gente
fue un profeta certero que no hizo públicas sus profecías
pero se amargó profundamente con ellas

acaso imaginó a los futurísimos choznos de quienes
inauguraban el paisito
esos gratuitos herederos que ni siquiera iban a tener la
disculpa del coraje
y claro presintió el advenimiento de estos ministros alegóricos
estos conductores sin conducta estos proxenetas del
recelo estos tapones de la historia
y si decidió quedarse en curuguaty
no fue por terco o por necio o resentido
sino como una forma penitente e insomne de instalarse en su
bien ganado desconsuelo.

16 de fevereiro de 2017

..." una misma consciencia social. " por Mario Benedetti





― El autor no sale a la búsqueda de cualquier lector, sino a la búsqueda de sus cómplices, o sea de sus iguales, de sus pares […] La complicidad de dos individualismos nunca puede llegar a una integración tan duradera como la solidaridad de dos participantes que comparten una misma consciencia social. 

                                                           Mario Benedetti (BENEDETTI, 1977, p. 103)



9 de fevereiro de 2017

Crônicas do Cotidiano - Seja a mudança que você quer ver no mundo.





Ontem, enquanto aguardava minha namorada sair do salão de beleza, duas garotas conversavam em meio a secadores, revistas de fofocas e manicures, sobre o que elas gostariam de fazer para melhorar o mundo. Pensei “Opa! Tá aí uma conversa que eu pagaria para ouvir”. E pelo jeito não fui o único, já que a manicure que fazia o pé de uma senhora ao meu lado, levantou uma das sobrancelhas.  
Peguei-me pensando - o que será que essas gurias teriam em mente? - Ajuda humanitária na África, participar de projeto social no Nordeste ou quem sabe algum trabalho voluntário em asilo para idosos? Infelizmente, eu nunca saberei... Logo minha namorada apareceu, e com ela meus pensamentos, enquanto deixávamos o salão.      
No dia seguinte levantei cedo, tomei meu café, peguei minha bicicleta e saí para dar uma volta pela cidade. Pouquíssimos eram aqueles que se aventuram no Domingo, a sair tão cedo.  Com as ruas desertas, pude pedalar com toda tranqüilidade do mundo, sem ser incomodado por buzinas, semáforos ou motoqueiros acelerados. Na volta resolvi passar pelo supermercado, tinha esquecido minha garrafa com água, e o dia prometia ser quente.
Enquanto passava o cadeado na bicicleta ( Confie em Alá, mas amarre seu camelo primeiro , diz um ditado Sofi ), uma mãe repreendia o filho por ele ter esquecido de trazer a tranca, que aquela já era a segunda bicicleta que ele ganhara e blá, blá, blá... O menino que devia ter seus oito ou nove anos, ouvia tudo como uma noviça em penitência.  Como também já esqueci meu cadeado algumas vezes, mostrei ao garoto o que eu fazia nesta situação – o supermercado sempre deixa algumas correntes presas no bicicletário –, era só uma questão de enrolá-la no pneu, e torcer para que ninguém percebesse que não havia cadeado. Simples, não ! Ele sorriu. 
Peguei uma garrafa d água e algumas coisas extras. Tinha alguém que na volta, eu pretendia visitar. No caixa, enquanto separava o dinheiro, uma senhora carregando um saco de batatas como se fosse um filho ( por conta do peso ), acomodou-se no fim da fila. Perguntei se eram somente as batatas e se ela não gostaria de passar na minha frente. Ela sorriu, e antes de deixar o supermercado agradeceu com um aceno de mão. No tempo em que acondicionava minhas compras na sacola, a caixa se virou impaciente, querendo me entregar o troco. Para meu espanto, tinha recebido quase o dobro do dinheiro que eu tinha dado a ela. Devolvi a diferença, dizendo que eu tinha pago com uma nota de 50 reais, e não de 100. Ela refazia as contas numa pequena máquina de calcular, dessas que a gente compra num bazar de 1,99. Ela tb sorriu ! Não com a espontaneidade do garoto, mas sorriu. 

Na volta passei pela casa da minha avó, queria lhe fazer uma surpresa. Havia dias que eu não passava por lá. Aproveitei que tinha ido ao supermercado e comprei algumas coisas que eu sabia que ela gostava – pão de leite, geleia, café e Queijo Minas. Tomei meu segundo café, ouvindo os últimos acontecimentos da semana. Por vezes, me fazia perguntas, para saber se realmente eu prestava atenção ou se só  estava de corpo presente.  Foi quando me lembrei daquelas duas gurias no salão, e me veio a frase de  Mahatma Gandhi     " Seja a mudança que você quer ver no mundo "

1 de fevereiro de 2017

Bandoneón por Mario Benedetti ( Poema )



Aníbal Carmelo Troilo ( Pichuco )


me jode confesarlo
pero la vida es también un bandoneón
hay quien sostiene que lo toca dios
pero yo estoy seguro que es troilo
ya que dios apenas toca el arpa
y mal


fuere quien fuere lo cierto es
que nos estira en un solo ademán purísimo
y luego nos reduce de a poco a casi nada
y claro nos arranca confesiones
quejas que son clamores
vértebras de alegría
esperanzas que vuelven
como los hijos pródigos
y sobre todo como los estribillos

me jode confesarlo
porque lo cierto es que hoy en día
pocos
quieren ser tango
la natural tendencia
es a ser rumba o mambo o chachachá
o merengue o bolero o tal vez casino
en último caso valsecito o milonga
pasodoble jamás
pero cuando dios o pichuco o quien sea
toma entre sus manos la vida bandoneón
y le sugiere que llore o regocije
uno siente el tremendo decoro de ser tango
y se deja cantar y ni se acuerda
que allá espera
el estuche.

fin