17 de fevereiro de 2013

Editora sob demanda: a maldição literária.



Por Ghost Writer.


Hoje venho realizar uma triste tarefa, que eu esperava jamais ter que fazê-la. Só quero esclarecer que o faço, não por ser recalcado, como muitos deduzirão, mas sim para alertar escritores iniciantes para que não caiam na mesma cilada que eu. Essa cilada chama-se “Editoras sob demanda”, uma em especial que foi a que me ludibriou, mas por conhecer muito bem a índole do editor não revelarei o nome, e chamarei aqui de “Editora X”e acredito que quem é “do meio” saberá de qual se trata mesmo sem que eu revele o nome.
Deixe-me contar como tudo começou: cena comum, terminei meu livro e como muitos autores sonhadores, comecei a buscar uma editora que se interessasse pelo meu trabalho. Encontrei algumas que ofereciam oportunidades para anônimos como eu, dentre elas a “Editora X” e enviei meu original. Em pouquíssimo tempo o editor chefe me procurou, dizendo maravilhas do meu livro e me oferecendo uma oportunidade. Era tudo o que precisava ouvir, é tudo o que todo autor quer ouvir, que seu trabalho é único, perfeito, maravilhoso e que vai vender horrores, bastando para isso, que você invista uma ínfima quantidade de dinheiro. Caí na conversa mole dele e pedi que me enviasse o orçamento. Tão logo recebi o orçamento, vi que a quantia não era tão ínfima assim. Ele apresentou-me duas propostas:
- Na primeira, eu concordaria em comprar 500 exemplares do livro pela metade do preço final, algo que ficaria em torno de R$ 9.000,00.  
- Na segunda, eu pagaria os serviços de editoração, que remontaria a aproximadamente R$ 5000,00, que cobririam os serviços de revisão, diagramação, capa e assistência editorial e se eu quisesse (preste muita atenção nessa parte!) eu poderia comprar quantos exemplares me aprouvesse depois para revender.
Pensei, repensei, fiz as contas e decidi optar pela segunda opção. Não ganho muito, tenho um emprego onde recebo mensalmente o equivalente a dois salários mínimos, mas acreditei que poderia arcar com esses custos. Afinal, tratava-se de um sonho, e um sonho não tem preço, não é mesmo? Fiz um empréstimo pessoal no banco, o qual levaria cerca de 3 anos para pagar, mas conforme as ilusões que ele me vendera, eu acreditava que valeria a pena, pois seria uma questão de tempo até meu trabalho ser reconhecido e eu recuperar todo esse investimento.
Acompanhei o processo do livro com entusiasmo, desde a apresentação da capa (lindíssima), até a revisão e diagramação, era sempre uma enorme alegria acompanhar aquele meu sonho “tomando forma”. Entretanto, pouco antes de o livro finalmente ir para a gráfica, veio a minha primeira surpresa: eis que o senhor editor me liga para informar que eu precisaria comprar 300 exemplares do meu livro antecipadamente ou meu livro não iria para a gráfica porque ele não tinha o dinheiro para pagar a impressão. Sim, isso mesmo que você leu! Quer dizer que após ter investido R$ 5000,00 (que eu não tinha) eu estava correndo o risco de não ver meu sonho se concretizar, sem falar que até então eu ainda não tinha resultado algum, pois o livro de fato ainda não estava pronto, eu havia pago R$ 5000,00 por serviços “virtuais”! E o pior, acabei gastando os mesmo R$ 9000,00 previamente propostos, mas agora ficaria com apenas 300 exemplares em mãos, ao invés de 500.
Entrei em desespero e o meu lindo sonho naquele momento já começava a se transformar em pesadelo. De onde eu tiraria os novos R$ 4000,00 que ele agora me exigia? Em compensação, se eu não levantasse esse dinheiro, perderia os R$ 5000,00 já investidos, sem falar na vergonha de encarar todos os meus amigos e parentes que já aguardavam ansiosamente o lançamento do livro e acompanhavam cada etapa desse processo. Novamente recorri ao banco e a minha dívida, que antes levaria 3 anos para ser paga, foi prorrogada para 5 anos, além de que a parcela do empréstimo começou a comprometer seriamente meus rendimentos, de modo que precisei começar a me privar de certos confortos para poder honrar as minhas dívidas. Dessa forma, eu já não saía nem viajava mais, tinha que contar moedas até para pedir uma pizza!
De toda forma, paguei à “Editora X” os R$ 4000,00 e aguardei ansioso pelo dia em que finalmente teria meu livro pronto nas mãos. Ah, mas outra odisseia me aguardava! Após decorridos alguns dias da data prevista para a entrega dos livros em minha casa, entrei em contato com a referida editora para saber o motivo do atraso e fui “gentilmente” informado pelo editor que como eu não pagara o frete de entrega, deveria dar um jeito de retirar os livros na gráfica. Observação: ele havia me falado que o frete seria grátis!
Meu livro ainda nem havia saído e eu já me defrontava com mais um problema: Como iria retirar esses malditos livros na gráfica? A gráfica fica em São Paulo e eu moro relativamente longe de lá. Além disso, não possuo carro, como faria isso? A transportadora queria me cobrar algo em torno de R$ 400,00 para fazer essa entrega e meu Deus, eu não tinha esse dinheiro!
Graças aos céus, consegui um tio que se prontificou a me levar até lá para pegar os livros e só me cobrou o preço da gasolina e do pedágio. Afinal, tinha o livro em minhas mãos! Ah, era como carregar um filho, e tudo naquele momento mágico pareceu valer a pena! Mas ainda aconteceria outra coisa que estragaria esse momento idílico: a noite de lançamento do meu livro. Ele ficou de me ajudar ou pelo menos indicar onde eu poderia realizá-la, mas apesar de meus constantes telefonemas, nada disso aconteceu e eu tive que me virar sozinho. Com a ajuda de amigos e familiares, consegui finalmente organizar a noite de lançamento e tudo correu bem.
Logo comecei a divulgar o livro nas redes sociais e acabei conhecendo alguns colegas de editora, nos aproximamos e começamos “a trocar figurinha” e a cada nova história, eu ficava mais e mais indignado.
Um dos meus colegas, contou que ao receber a nota fiscal dos 200 livros que comprou, percebeu que o valor que ele havia pago à editora pelos 200 exemplares foi o custo total da impressão dos 1500 exemplares dele! Ou seja, ele pagou por  1500 exemplares e só recebeu 200! Explico: ele pagou R$ 15,00 o exemplar, ou seja, no total R$ 3000,00 e a editora, pagou à gráfica míseros R$ 2,00 por exemplar, ou seja, no total, R$ 3000,00! Detalhe: esse meu colega já havia pago à parte, assim como eu, os demais serviços editoriais.
Outro colega, contou que descobriu que a gráfica imprimiu apenas os 400 exemplares que ele encomendou e não os 1500 previstos no contrato e dos quais a editora deveria ficar com 900 para vender, ou seja, só existiam “no mercado”, os 400 exemplares que estavam em suas mãos...
Além disso, tive a oportunidade de conhecer uma revisora e um capista que realizam trabalho para a “Editora X” e eles me contaram que a editora paga apenas R$ 2,00 por página para o revisor, sendo que dos autores ela cobra R$ 5,00! Com o capista, ocorre o mesmo, ele recebe em torno de R$ 500,00 por uma capa e a editora cobra do autor algo em torno de R$ 1000,00! Ah, e nem falemos da diagramação, que é feita pela esposa do editor e que contém inúmeros erros, no livro de uma colega ela separou a palavra “mulher” assim: mul-her (?)Essa diagramação é cobrada por página, saindo em torno de R$ 6,00. Agora você soma esse valor com o número de páginas de um livro. Somou? Então, é esse o valor absurdo! Isso sem contar que uma colega entrou em contato com uma diagramadora e descobriu que geralmente esse trabalho é cobrado por número de caracteres do texto e não por página. Daí você percebe que a maioria dos livros da editora são no formato 14X21, sendo que muitos deles poderiam (ou deveriam) sair no formato 16X23. Tudo isso faz com que o número de páginas seja maior e consecutivamente o valor da diagramação aumenta.

Além desses incidentes, passei a ter mais contato com as obras da editora e comecei a ter vergonha por ver tanto material de qualidade no mínimo “duvidosa” ser publicado, sem ao menos ser editada ou minimamente revisada e comecei a questionar se o editor realmente avalia alguma coisa ou só se interessa pelo dinheiro de pobres coitados sonhadores como eu.
Sobre a revisão da referida editora, quero fazer uma ressalva: Uma colega contou que sugeriu ao editor, até para economizar um pouco, que ela poderia pedir a um amigo que revisasse o livro pra ela, mas o Léo disse que não confiava em ninguém “de fora” para revisar seus livros, pois tinha profissionais “altamente capacitados” para tal trabalho. Altamente capacitados? Você chamaria de altamente capacitado um revisor que deixa escapar coisas como “remorço”, “possa d’ água” e afins? Ou coloca crase antes da palavra “ele”? Isso sem contar que muitos alteram o texto do autor para pior, criando erros antes inexistentes, sendo encontradas palavras erradas, erros de digitação e incoerência. Recentemente, uma colega teve seu livro revisado por tais “profissionais altamente capacitados” e precisou arrumar os erros que o revisor fez em sua obra, necessitando assim de outro revisor e muito mais trabalho em cima de um texto que deveria estar impecável.
Sobre os livros que são séries, há também complicações. O senhor editor pressiona os autores que possuem séries antes mesmo da primeira obra completar um ano de publicação. Ele diz que não fará a segunda edição do primeiro livro se o escritor não assinar com ele a continuação. O autor, que sequer recuperou o dinheiro investido na primeira obra, se vê obrigado a gastar novamente tal absurdo caso queira continuar com seu trabalho. E o editor não quer saber se o autor terminou ou não a continuação!
Mas o fim da picada mesmo aconteceu quando o livro de uma colega “vazou” na internet. A editora havia disponibilizado o livro dela para venda em formato ebook e dias depois, o livro estava disponível para download gratuito na internet, em formato PDF. Quando ela descobriu e tentou entrar em contato com a editora, descobriu que a mesma estava “em férias coletivas” e que só conseguiria obter resposta dali a 15 dias! Após muita insistência, o editor respondeu em e-mail, dizendo que o formato disponível para download não era o mesmo disponibilizado pela editora, de forma que o livro deve ter “vazado” por meio dela mesma e que por isso, caberia a ela tomar as providências necessárias! Tipo: foda-se! 
Pelo menos três colegas meus mergulharam em estado depressivo após todos esses fatos e dois deles chegaram a perder o emprego, por verem o que deveria ser um lindo sonho, transformar-se num terrível pesadelo, graças a esse explorador inescrupuloso, destruidor de esperanças alheias, o senhor editor, que prometeu a eles mundos e fundos, para conseguir aproveitar-se o máximo dessas pessoas, arrancando-lhes até o último centavo e fio de dignidade que possuíam. 
Nenhum deles teve coragem de denunciar tais abusos por medo de represálias, pois o referido editor, ao ser contrariado minimamente, tira os livros dos escritores “de circulação” com a desculpa torpe de que os livros “se esgotaram”, e nenhum dos autores recebeu o relatório de venda de suas obras. Ninguém sabe se o editor realmente vende os livros que diz imprimir ou simplesmente some com o nosso dinheiro e o usa para comprar títulos estrangeiros ou para custear os custos de publicação dos livros dele, obras as quais ele tem a petulância de publicar em russo, mesmo eles sendo simplesmente terríveis. Olhem para o catálogo deles e vejam quantos autores deixaram a editora. Será coincidência?
Agora a editora lança uma campanha de doação de sangue e sai como a boa samaritana da história, sendo elogiada em blogues, sites e revistas pela atitude. Mal sabem as pessoas que eles realmente “querem o seu sangue” e farão de tudo para sugar até a última gota de vida.
Como disse, muitos não tiveram coragem de gritar ao mundo e denunciar tal editora mas eu, nada mais tenho a perder, pois o que resta a um homem cujos sonhos foram destroçados? Mais nada.

Agradecemos a Ghost Writer pela colaboração e informamos que nosso blog está aberto para toda denúncia relacionada ao meio literário.A pergunta que não quer calar: que editorazinha seria essa?


Reprodução do site : http://litfanbr.blogspot.com.br/2013/02/editora-sob-demanda-maldicao-literaria.html

5 de fevereiro de 2013

Ler sempre, mas com método



“Exercício de vontade. – Ler com método, tomando notas e pondo em ordem, por escrito, as impressões. Escrever, escrever sempre, todos os dias, escrever mesmo banalidades, não para publicar, mas como quem pratica um ofício, com a finalidade de pesquisar os processos da forma. Muitos dos nossos estudos e leituras são mal aproveitados por falta de método. Voltar a ler certos autores fundamentais como Bergson e Proust, com o lápis na mão e o caderno nas pernas. Dominar a preguiça, sufocar o gosto das evasões para livros mais agradáveis porque mais fáceis; não deixar-se vencer pelo simples prazer da leitura como um diletante.”


São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos(org. de Eduardo Cesar Maia)