31 de janeiro de 2015

A árvore que atende pedidos




Nossa repórter conheceu a lendária figueira da Casa do Sol, de Hilda Hilst, cultuada por escritores e artistas plásticos em busca do “espírito da coisa” ( Matéria do site Clichetes )


Avida era uma festa para a jovem Hilda Hilst. A filha de ricos fazendeiros do café “era bonita e ainda escreve”, diziam os amigos de Oswald de Andrade. Nos anos 1950, sua beleza e inteligência chamaram a atenção de Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, que a pediu em casamento.

A poeta viajou pela Europa e morou em Paris. Em São Paulo, frequentava festas da alta sociedade e podia ser vista rodando num mercedes prateado, sempre cercada por homens bonitos. Era um espírito independente e em ebulição. Até que um dia, depois de ler o livro Carta a El Greco, de Nikos Kazantzakis, decidiu se afastar da vida agitada para dedicar-se a escrita. O escritor grego diz que para entender o humano, o isolamento era necessário.
Hilda queria pensar “no que era real e urgente”. Foi então que, em 1964, ela se mudou para a propriedade de sua mãe nos arredores de Campinas, interior de São Paulo. Ainda não havia mata e a paisagem de luz era dominada por um capim seco. A única árvore do terreno era uma figueira solitária.
Ao lado dela, Hilda construiu uma mesa com tampo de mármore e quatro bancos de pedra. Depois, a poucos metros dali, ergueu a Casa do Sol, em estilo colonial, como um mosteiro espanhol com um pátio interno. No centro dele, um enigmático poço, que dizem, foi construído baseado nos princípios da alquimia.
Ela se mudou para a casa com o futuro marido, o escultor Dante Casarini. Trocou os vestidos por túnicas coloridas e fez um estoque de lampiões de querosene.  Por 40 anos viveu reclusa, mas cercada de amigos. Logo o lugar se tornou um ponto de encontro de uma comunidade artística, com lendárias noites regadas a vinho do Porto e debates que iam da filosofia a romances açucarados da novela das nove. Devotada ao trabalho, Hilda era disciplinada e escrevia todos os dias em uma máquina Olivetti Lettera 22. Gostava de olhar para o jardim, para os passarinhos. Também passava horas com os animais que tanto amava. Chegou a ter 100 cachorros, a maioria vira-latas abandonados.
Hilda dizia que ao morrer se mudaria para Marduk, o planeta dos poetas. Aos 73 anos, numa madrugada de fevereiro de 2004, a escritora faleceu. Deixou a casa para amigos próximos e uma dívida de R$ 2,5 milhões em IPTU. Em 2011, a casa foi tombada pelo patrimônio histórico após uma batalha judicial para que não fosse parar nas mãos de uma construtora.
 Esta é Olga. Foi uma das melhores amigas de Hilda Hilst, diz minha amiga Mariela Mei após me buscar na rodoviária de Campinas. Ao seu lado está a artista plástica Olga Bilenky, 63 anos, que mora na casa desde 1979.  Muitos dos quadros e mandalas que decoram a parede da casa são dela. Veio com o então namorado Mora Fuentes e encontrou ali uma nova família. Seu filho, Daniel Fuentes, herdou os direitos autorais da escritora. Depois que o marido morreu, é a responsável por gerenciar o dia a dia da chácara.


- Hilda construiu a casa para construir sua obra, explica Olga, enquanto fazemos compras no supermercado para abastecer a semana, tempo que eu ficaria hospedada como residente da casa.
Passando pela portaria do bairro Xangrilá, chega-se ao portão de ferro da Casa do Sol, marcado pelas iniciais H.H. e que foi adquirido num antiquário. O latidos dos 11 cachorros, que correm agitados pela alameda de palmeiras é a campainha da propriedade de mais de 9 mil m². O mais velho, Nenê, um vira-lata preto, observa de longe. Ele conheceu a escritora ainda viva e hoje está com Alzheimer. Por causa da idade, precisa de cuidados especiais.
Após a morte da escritora, a Casa do Sol se tornou a sede do Instituto Hilda Hilst (IHH), criado para preservar sua memória. Os móveis originais, os quadros, fotografias e a biblioteca da escritora, com mais de três mil livros do seu acervo pessoal. Um de seus projetos são as residências artísticas, que acontecem desde 2012, recebendo pessoas que pagam para se hospedar e realizar a criação de projetos, com liberdade para acordar e trabalhar como quiserem. Naquela semana, Mariela estava iniciando um novo livro, e eu tentava escrever os primeiros contos de ficção.
Quem nos recebe na entrada é Jurandy Valença, diretor de projetos do IHH, jornalista e artista plástico e outro morador da casa. Ele nos espera entre as estátuas de São Francisco, protetor dos animais, e de São Benedito. Ambas foram esculpidas em madeira e são como guardiãs da casa ocre e rosada.
- Resolvemos criar as residências artísticas para que o ‘espírito da coisa’ continuasse, diz Jurandy. O “espírito da coisa” a que Hilda sempre se referiu é a vocação natural da casa para ser um espaço de criação.  Escritores, poetas, pesquisadores, acadêmicos, tradutores, fotógrafos, artistas visuais, atores e dramaturgos já passaram por lá.
É curioso que mais de duas décadas antes de morrer e da criação do instituto, em 1980, Hilda manifestou, em uma entrevista ao jornalista Léo Gilson Ribeiro, sua vontade de provocar uma “abertura de intensidade” nas pessoas que a liam. Sobre isso, ela disse: “É difícil definir [o que seria essa abertura], talvez fosse mais fácil sentir isso. É mostrar ao outro que ele pode desvendar o seu ‘eu’ desconhecido; é proporcionar ao outro o ‘autoconhecimento’ , uma compreensão definitiva de si mesmo, com suas potencialidades, falhas e virtudes”.

O terreno da casa é arborizado e o chão parece um tapete feito das folhas que envelhecem e caem. A figueira centenária na verdade é uma junção de duas. Chama atenção pelas raízes aéreas longas que brotam dos galhos e descem até o chão. Além de ter sido a primeira árvore da Casa do Sol, também é a maior e mais larga, com mais de 20 metros e um tronco que poderia receber o abraço coletivo de cinco pessoas. Abriga diversos insetos e aranhas que tecem teias em suas fendas. Sua madeira é rugosa, tortuosa e barroca. Uma escultura natural que pode viver até 400 anos.
Sob um dos galhos, Hilda criou um balanço, feito de lastro de madeira, que hoje está condenado, mas permanece em pé apenas como lembrança, em frente à mesa.
- A mesa tinha um tampo original, mas o Jô Soares quebrou ao sentar, explica Olga. A mesa improvisada do quintal, ainda é um dos cantos preferidos para se ver o tempo passar. Ali, a escritora gostava de fumar, tomar champagne e conversar com amigos como Lygia Fagundes Telles, sua amiga desde época em que estudavam na faculdade de Direito da USP.
Hilda considerava a árvore mágica e dizia que ela despertava a criatividade nas pessoas. Era um dos seus lugares preferidos e, em momentos complicados da sua vida, abraçava a figueira e ficava em silêncio.
Registros fotográficos do início da construção da Casa do Sol são raros. Mas o dramaturgo mineiro Juarez Diaz, que está escrevendo um livro sobre o assunto, acaba de encontrar nos arquivos pessoais da escritora um retrato onde ela aparece aos pés da figueira, olhando para os alicerces da casa.
- Todas as imagens que conhecíamos era da casa pronta, mas essa revelava a sua construção, a sua espinha dorsal, conta ele, que ficou 15 dias hospedado como residente.
A imagem foi o pontapé que o artista precisava para iniciar o livro. Juarez levou a foto para seu quarto e acabou dormindo abraçado com ela.
- Quando acordei, depois do café da manhã, fui tomar banho e o texto inicial que iria escrever me veio debaixo do chuveiro. Terminei, abri um vinho e me tranquei no quarto: assim, escrevi o pré-prólogo do romance sobre o projeto de construção da Casa do Sol.
A obra continua a pleno vapor.

*

Desde tempos imemoriais figueiras de diferentes espécies são consideradas sagradas. Sob uma figueira, Buda meditou até atingir o Nirvana, a paz absoluta. É por isso que na Índia ela é facilmente encontrada em templos e a consideram uma árvore habitada por divindades. No Brasil, em terreiros de candomblé, é comum encontrar sob seus pés oferendas aos orixás. Quando seu tronco está rodeado por um pano branco, diz-se que nela vivem espíritos ancestrais e Irôko, orixá do Tempo, que domina os mistérios da vida e da morte e que pode ser invocado para questões difíceis.

No dia em que cheguei, pressionei com a palma da mão a superfície da figueira e fiz três pedidos. “Ela já atendeu muitos pedidos meus”, conta Olga, que alerta que eles devem feitos para a própria pessoa e que são mais fortes em noite de lua cheia.
Olga lembra a experiência do escritor Caio Fernando Abreu, que ainda no início da carreira, em 1968, após ser fichado pelo DOPS, se refugiu na Casa do Sol por um ano. Caio escreveu: “A Hilda dizia: Cainho, essa figueira é mágica. Quando a gente tem um problema muito grave, fala com ela e ela resolve”.
Em plena ditadura militar e sem inspiração para escrever, Caio certamente tinha muitos problemas. Mas para o escritor, o mais urgente era sua voz fina e de garoto. “Uma noite, abracei a figueira e pedi para a voz mudar. Voltei para o quarto, peguei um livro de Fernando Pessoa que estava lendo e no terceiro verso a voz ficou assim, grave. Pedi com tal concentração e fé que, acho, eu mesmo me curei. A partir da mudança da voz fiquei mais seguro. Aí me assumi como adulto. Essa história é verdadeiríssima”. Foi ali, na casa da amiga, que ele terminou de escrever Inventário do Irremediável, seu primeiro livro de contos publicado.
Ao terminar de falar, Olga quebra o clima de mistério e lembra que precisamos ir logo para a cidade comprar vinho. Naquela noite, receberíamos a visita de Bia, uma grande amiga da Casa do Sol, também com sessenta e poucos anos e que, provavelmente, é “uma das últimas hippies originais do Brasil”.

*

Na casa, quando chove, o frio e a umidade ficam mais fortes. Os barulhos também, como o vento que uiva na janela e passadas de ratos que infernizam o forro da casa. No silêncio, sob a penumbra de abajoures ligados, uma tristeza pode tomar conta do lugar. Em uma minúscula fatia de tempo, já sentia que as horas passavam devagar como uma dimensão paralela. Imagine quem viveu ali por 40 anos.
As noites na chácara são silenciosas e estreladas. A vista do céu sempre foi uma atração da casa — especialmente quando há estrelas cadentes e até luzes “suspeitas”. Em 1967, Hilda e seu então marido avistaram uma luz muito forte no jardim. Ao se aproximarem da janela, viram uma bola de fogo que desapareceu depois de alguns segundos.
O interesse pelo sobrenatural sempre acompanhou a escritora. Em 1976, após ler sobre os experimentos do sueco Friedrich Jürgenson com a captação de vozes dos mortos, a escritora ficou fascinada pelo assunto e começou a fazer seus próprios registros com um gravador ligado no rádio. Para ela, o método poderia embasar pesquisas que explicariam o fenômeno e por isso, deveria ser levado a sério pela ciência. Um amigo de Hilda, físico da Unicamp, brincava que ela mandava alguém subir na figueira para irradiar as interferências que registrou. Sobre sua insistência na pesquisa, Hilda dizia que seu interesse era uma necessidade metafísica.
“Por quê tanta teimosia? Hora, acho que a morte é a única situação transcendente ao homem, a problemática mais importante”.

*

Quando chegou à casa pela primeira vez, em 2012, Mariela também fez os seus três pedidos à figueira. Ela estava na sua primeira residência artística e tentava terminar um livro de contos sobre a morte. Durante a estada na casa, visitou a figueira várias vezes em busca de inspiração e determinação para continuar a escrever.
- Os três pedidos eram quase impossíveis de realizar, mas foram atendidos um a um. Não foi imediato, mas também não demorou muito. Já renovei meus pedidos e espero que ela me ouça novamente!
Foi numa noite de lua crescente que ela e outra residente se sentaram ao lado da figueira. Mariela quis tirar uma fotografia da árvore e clicou. Ao olhar para o visor da máquina, notou um acontecimento estranho.
- Nesta fotografia apareceu um dos cães olhando para uma fonte de luz circular forte, com uma espécie de aura colorida em volta. Mas não vimos nada a olho nu, lembra ela.
As duas começaram a fotografar em diferentes ângulos. Em alguns, luzes apareciam, em outros, apenas o breu da noite. E foi na mesa de pedra que elas encontram a maior quantidade de círculos de luz de todos os tamanhos e intensidade. Mariela acredita que os focos eram a energia que vinha da árvore.
- Acredito realmente que o que tinha ali poderia ser algo de outros planos, por que não?

Numa tarde de sábado, a casa recebe uma visita de uma estudante de Porto Alegre que veio entregar em mãos o seu trabalho de mestrado sobre a escritora. Em conversa, a garota deixa escapar que seu professor de grego se referiu a Hilda como “aquela velha louca”.  Olga ficou muito tempo em silêncio. Quando a visita foi embora, desabafou. “É um absurdo o que aquele professor disse”.
Chamada de “tábua etrusca” por uma crítica literária, a literatura de Hilda é considerada hermética e incompreensível para muitos. Sobre essa dificuldade, a escritora brincava em entrevistas. “Francamente, não acho que os textos sejam esquizofrênicos. Eu os leio tão bem…”. Sempre desejou ser lida e para isso, a partir dos anos 1990, teve a ideia de escrever livros com pitadas de erotismo, fórmula que fazia algum sucesso na época. Poderia ser uma futura Sylvia Day, mas era Hilda. “Eu queria fazer alguma coisa que, de repente, eles realmente gostassem de ler. Não adiantou. Dizem que eu era dificílima na literatura pornográfica”.

*

Em maio de 2013, a Casa do Sol recebeu cinco artistas plásticos para uma residência dentro do projeto “Poemas aos Homens do Nosso Tempo” que teve a proposta de criação de uma obra inédita a partir do poema homônimo de Hilda Hilst.
Um dos artistas era o goiano Divino Sobral. “Não tenho hábito de fazer pedidos”, conta ele, que dispensou os poderes mágicos, mas visitava a figueira diversas vezes ao dia para pensar sobre o trabalho e as muitas histórias guardadas naquele local.
- Eu a tocava e assim trocava energia com ela. Guardo carinhosamente, em casa, algumas cascas do tronco da figueira de Hilda, confessa Divino Sobral.
Todos os dias, Divino acordava com os primeiros raios de sol e fazia uma caminhada. Aos poucos, começou a perceber o movimento da luz: do portão até a figueira ela percorre um caminho de leste para oeste. Segundo ele, a figueira domina o lado direito do jardim sombreado. Ela desperta a percepção e convida a ver a vida fantástica das formas figurais, ora fantasmáticas, ora medonhas, ora eróticas contidas nos troncos, nas raízes, nas flores e frutos das árvores do quintal.
- A figueira é bem mais do que podemos ver. Eu buscava imaginar a extensão e a profundidade de suas raízes que penetram no solo e trazem de volta uma espécie de substância energética do interior da terra para as folhas. Força é a palavra que encontro para definir um pouco a árvore bela e grotesca. Para mim ela proporciona uma fonte de energia  simultaneamente telúrica e vegetal; um encontro com um tempo muito remoto; conduz-me, de certa forma, à proximidade com certa ancestralidade, a um sentimento poético inexplicável de contato com uma genealogia. Hilda tinha uma relação verdadeira com a figueira e era capaz de sentir todos os tipos de energias liberadas por ela. Os mortos que Hilda dizia viver por ali, talvez habitassem o fluxo energético da antiguíssima árvore. E, desse modo, eu gosto de pensar que Hilda vive ainda na figueira por meio da memória de suas relações com ela. A figueira é sagrada.
A relação de Hilda com a figueira o levou a realizar duas obras que se relacionam com a cor vermelha (a preferida da escritora) e o ambiente do jardim. A primeira, intitulada Coral de árvore para Hilda Hilst, foi realizada com fios de lã vermelhos envolvidos sobre uma goiabeira. Hilda identificava o vermelho como a cor da vida e também dizia que após sua morte, se manifestaria pela cor.

A segunda obra é uma instalação montada no espaço cultural Ateliê Aberto, em Campinas.  Trazia uma foto da árvore feita na Casa do Sol e 18 versos do livro Júbilo, memória e noviciado da paixão. Divino fez uma performance que buscou a intensidade do vermelho.
- A energia vital, a pulsão erótica foi traduzida por uma pintura feita diretamente sobre a parede com escorrimentos de tinta vermelha e com os textos, que foram apagados pela minha língua, até sangrar sobre a parede. A obra de Hilda é muito orgânica e corporal.

*

A poetisa e escritora Roberta Ferraz tem duas paixões literárias: Hilda Hilst e Fernando Pessoa. Durante sua estada na Casa do Sol, escreveu alguns poemas em que a figueira aparece como personagem. Um deles, lembra o momento de fazer seus pedidos, quando descalça, quis dançar.
“foi ontem, a sexta-feira 13 / infatigável soma de olhos e guias/ longevo pé nua terra/
descendo ao pôr-do-sol para figueira/  ei-la antiquíssima, centro escolhido pela Hilda
quando desenhou a casa na palma da mão…/ recolhida nos meus aposentos o dia toda todo /
às 16h30, hora de meu quase nascimento, desci / e dancei dentro dela, da terra úmida, fria, viva
fiz os pedidos/ disse a minha sorte, chamei-a, chamei-te”
Desde que ficou na casa, para começar a escrever um livro, Roberta sempre volta para novas visitas. Na primeira vez, passava os dias lendo e anotando pensamentos. Cozinhava e conversar com os moradores. Registrava suas sensações tudo num caderninho e também num blog.
Roberta Ferraz foi a segunda residente da Casa e acredita que a casa é uma extensão da obra de Hilda.
-A casa extravasa a biografia de Hilda para que a escrita possa acontecer. É uma casa de escrita, um espaço ritual, que foi pensado para ser assim e foi vivido dessa maneira, com tudo que a entrega à escrita pede: comunhão, liberdade, silêncio, fragilidade, magia, trabalho, tempo, dedicação. Tudo ali te impele à reflexão. Mesmo que não saia dali nenhuma palavra grafada. A escrita, a arte, o pensamento, tudo isso entranha. E é certo que de alguma forma muito especial isso tudo vai reverberar nas tuas células: texto, livro, encontro, amigos, como for. Uma espécie de saúde, eu diria, que vem da força libertária da casa. Do espírito da coisa. 

*

Ao ficar sozinha na Casa do Sol, uma residente relata que estava escrevendo em seu quarto e ouviu um toc-toc na porta. Perguntou quem era. Ninguém respondeu e ela ficou quieta. Novamente batem. Nenhum barulho de passos ou latido de cachorro. Depois, já com vontade de ir ao banheiro e fazer xixi, ela toma coragem e… ninguém estava lá. Relatos como esse não são novidade. Olga conta o “causo” da escritora Lygia Fagundes Telles. Ao sair do banho, dizem que ela avistou um sujeito sentado em sua cama e que rapidamente desapareceu no ar. A escritora deu um grito e saiu para o pátio correndo de camisola. Apenas Hilda estava na casa.
De noite, quando todos dormem, é que vem o medo de assombração. Residentes relatam pesadelos, sonhos curiosos, o resgate de lembranças remotas da infância e sonos profundos que trazem uma sensação de paz.
Talvez o monstro mais real seja uma colônia de cupins que invadiu a figueira e já deixou um galho cair. Um engenheiro florestal já foi chamado para avaliar a situação. Seu diagnóstico envolve uma frase: é preciso investir. Para Olga, este é um dos seus maiores medos.
Créditos .
Site http://clichetes.com.br/a-arvore-que-atende-pedidos/
Texto e fotos Carolina Cunha


18 de janeiro de 2015

Colinas como elefantes blancos


Ernest Hemingway
(1899-1961)

Colinas como elefantes blancos


      Del otro lado del valle del Ebro, las colinas eran largas y blancas. De este lado no había sombra ni árboles y la estación se alzaba al rayo del sol, entre dos líneas de rieles. Junto a la pared de la estación caía la sombra tibia del edificio y una cortina de cuentas de bambú colgaba en el vano de la puerta del bar, para que no entraran las moscas. El norteamericano y la muchacha que iba con él tomaron asiento en una mesa a la sombra, fuera del edificio. Hacía mucho calor y el expreso de Barcelona llegaría en cuarenta minutos. Se detenía dos minutos en este entronque y luego seguía hacia Madrid.
      —¿Qué tomamos? —preguntó la muchacha. Se había quitado el sombrero y lo había puesto sobre la mesa.
      —Hace calor —dijo el hombre.
      —Tomemos cerveza.
      —Dos cervezas —dijo el hombre hacia la cortina.
      —¿Grandes? —preguntó una mujer desde el umbral.
      —Sí. Dos grandes.
      La mujer trajo dos tarros de cerveza y dos portavasos de fieltro. Puso en la mesa los portavasos y los tarros y miró al hombre y a la muchacha. La muchacha miraba la hilera de colinas. Eran blancas bajo el sol y el campo estaba pardo y seco.
      —Parecen elefantes blancos —dijo.
      —Nunca he visto uno —el hombre bebió su cerveza.
      —No, claro que no.
      —Nada de claro —dijo el hombre—. Bien podría haberlo visto.
      La muchacha miró la cortina de cuentas.
      —Tiene algo pintado —dijo—. ¿Qué dice?
      —Anís del Toro. Es una bebida.
      —¿Podríamos probarla?
      —Oiga —llamó el hombre a través de la cortina.
      La mujer salió del bar.
      —Cuatro reales.
      —Queremos dos de Anís del Toro.
      —¿Con agua?
      —¿Lo quieres con agua?
      —No sé —dijo la muchacha—. ¿Sabe bien con agua?
      —No sabe mal.
      —¿Los quieren con agua? —preguntó la mujer.
      —Sí, con agua.
      —Sabe a orozuz —dijo la muchacha y dejó el vaso.
      —Así pasa con todo.
      —Sí dijo la muchacha—. Todo sabe a orozuz. Especialmente las cosas que uno ha esperado tanto tiempo, como el ajenjo.
      —Oh, basta ya.
      —Tú empezaste —dijo la muchacha—. Yo me divertía. Pasaba un buen rato.
      —Bien, tratemos de pasar un buen rato.
      —De acuerdo. Yo trataba. Dije que las montañas parecían elefantes blancos. ¿No fue ocurrente?
      —Fue ocurrente.
      —Quise probar esta bebida. Eso es todo lo que hacemos, ¿no? ¿Mirar cosas y probar bebidas?
      —Supongo.
      La muchacha contempló las colinas.
      —Son preciosas colinas —dijo—. En realidad no parecen elefantes blancos. Sólo me refería al color de su piel entre los árboles.
      —¿Tomamos otro trago?
      —De acuerdo.
      El viento cálido empujaba contra la mesa la cortina de cuentas.
      —La cerveza está buena y fresca —dijo el hombre.
      —Es preciosa —dijo la muchacha.
      —En realidad se trata de una operación muy sencilla, Jig —dijo el hombre—. En realidad no es una operación.
      La muchacha miró el piso donde descansaban las patas de la mesa.
      —Yo sé que no te va a afectar, Jig. En realidad no es nada. Sólo es para que entre el aire.
      La muchacha no dijo nada.
      —Yo iré contigo y estaré contigo todo el tiempo. Sólo dejan que entre el aire y luego todo es perfectamente natural.
      —¿Y qué haremos después?
      —Estaremos bien después. Igual que como estábamos.
      —¿Qué te hace pensarlo?
      —Eso es lo único que nos molesta. Es lo único que nos hace infelices.
      La muchacha miró la cortina de cuentas, extendió la mano y tomó dos de las sartas.
      —Y piensas que estaremos bien y seremos felices.
      —Lo sé. No debes tener miedo. Conozco mucha gente que lo ha hecho.
      —Yo también —dijo la muchacha—. Y después todos fueron tan felices.
      —Bueno —dijo el hombre—, si no quieres no estás obligada. Yo no te obligaría si no quisieras. Pero sé que es perfectamente sencillo.
      —¿Y tú de veras quieres?
      —Pienso que es lo mejor. Pero no quiero que lo hagas si en realidad no quieres.
      —Y si lo hago, ¿serás feliz y las cosas serán como eran y me querrás?
      —Te quiero. Tú sabes que te quiero.
      —Sí, pero si lo hago, ¿volverá a parecerte bonito que yo diga que las cosas son como elefantes blancos?
      —Me encantará. Me encanta, pero en estos momentos no puedo disfrutarlo. Ya sabes cómo me pongo cuando me preocupo.
      —Si lo hago, ¿nunca volverás a preocuparte?
      —No me preocupará que lo hagas, porque es perfectamente sencillo.
      —Entonces lo haré. Porque yo no me importo.
      —¿Qué quieres decir?
      —Yo no me importo.
      —Bueno, pues a mí sí me importas.
      —Ah, sí. Pero yo no me importo. Y lo haré y luego todo será magnífico.
      —No quiero que lo hagas si te sientes así.
      La muchacha se puso en pie y caminó hasta el extremo de la estación. Allá, del otro lado, había campos de grano y árboles a lo largo de las riberas del Ebro. Muy lejos, más allá del río, había montañas. La sombra de una nube cruzaba el campo de grano y la muchacha vio el río entre los árboles.
      —Y podríamos tener todo esto —dijo—. Y podríamos tenerlo todo y cada día lo hacemos más imposible.
      —¿Qué dijiste?
      —Dije que podríamos tenerlo todo.
      —Podemos tenerlo todo.
      —No, no podemos.
      —Podemos tener todo el mundo.
      —No, no podemos.
      —Podemos ir adondequiera.
      —No, no podemos. Ya no es nuestro.
      —Es nuestro.
      —No, ya no. Y una vez que te lo quitan, nunca lo recobras.
      —Pero no nos los han quitado.
      —Ya veremos tarde o temprano.
      —Vuelve a la sombra —dijo él—. No debes sentirte así.
      —No me siento de ningún modo —dijo la muchacha—. Nada más sé cosas.
      —No quiero que hagas nada que no quieras hacer…
      —Ni que no sea por mi bien —dijo ella—. Ya sé. ¿Tomamos otra cerveza?
      —Bueno. Pero tienes que darte cuenta…
      —Me doy cuenta —dijo la muchacha. ¿No podríamos callarnos un poco?
      Se sentaron a la mesa y la muchacha miró las colinas en el lado seco del valle y el hombre la miró a ella y miró la mesa.
      —Tienes que darte cuenta —dijo— que no quiero que lo hagas si tú no quieres. Estoy perfectamente dispuesto a dar el paso si algo significa para ti.
      —¿No significa nada para ti? Hallaríamos manera.
      —Claro que significa. Pero no quiero a nadie más que a ti. No quiero que nadie se interponga. Y sé que es perfectamente sencillo.
      —Sí, sabes que es perfectamente sencillo.
      —Está bien que digas eso, pero en verdad lo sé.
      —¿Querrías hacer algo por mi?
      —Yo haría cualquier cosa por ti.
      —¿Querrías por favor por favor por favor por favor callarte la boca?
      Él no dijo nada y miró las maletas arrimadas a la pared de la estación. Tenían etiquetas de todos los hoteles donde habían pasado la noche.
      —Pero no quiero que lo hagas —dijo—, no me importa en absoluto.
      —Voy a gritar —dijo la muchacha.
      La mujer salió de la cortina con dos tarros de cerveza y los puso en los húmedos portavasos de fieltro.
      —El tren llega en cinco minutos —dijo.
      —¿Qué dijo? —preguntó la muchacha.
      —Que el tren llega en cinco minutos.
      La muchacha dirigió a la mujer una vívida sonrisa de agradecimiento.
      —Iré llevando las maletas al otro lado de la estación —dijo el hombre. Ella le sonrió.
      —De acuerdo. Ven luego a que terminemos la cerveza.
      Él recogió las dos pesadas maletas y las llevó, rodeando la estación, hasta las otras vías. Miró a la distancia pero no vio el tren. De regresó cruzó por el bar, donde la gente en espera del tren se hallaba bebiendo. Tomó un anís en la barra y miró a la gente. Todos esperaban razonablemente el tren. Salió atravesando la cortina de cuentas. La muchacha estaba sentada y le sonrió.
      —¿Te sientes mejor? —preguntó él.
      —Me siento muy bien —dijo ella—. No me pasa nada. Me siento muy bien.

Em Tempo : Notas-se neste conto, o rigor das palavras no diálogo. Há uma força que, em  nem nenhum minuto é dita de forma clara/direta ao leitor, mas que nas entrelinhas é minuciosamente detalhada: O Aborto ! That´s Hemingway ! 

16 de janeiro de 2015

Caixa do Correio # 01




1) -  Por uma educação romântica - Rubem Alves

2) -  Rútilos - Hilda Hilst

3) -  Baladas - Hilda Hilst

4) - Cartas de um sedutor - Hilda Hilst

5) - Mrs Dalloway - Viriginia Woof. ( Estojo autêntica ) 3º lugar na categoria Tradução - Jabuti 2013.




Estojo - Mrs Dalloway

Para começar, a Mrs Dalloway da Autêntica vem em dose dupla: dois volumes acondicionados num belíssimo estojo. Um dos volumes é o romance propriamente dito. O outro é uma espécie de livro de anotações ou de apontamentos a que demos o título O diário de Mrs Dalloway. Com desenhos de Mayra Martins Redin e frases selecionadas de Virginia Woolf sobre a leitura e a escrita, entre outros temas, o volume funciona como uma agenda muito especial, com quatro tipos de páginas para anotações: pautadas, quadriculadas, divididas em quadrantes e inteiramente brancas.


Os volumes são apresentados em capa dura com papel especial que remete às antigas encadernações de tecido, com letras em baixo relevo branco. Nas folhas de guarda, um mapa estilizado de Londres em aquarela, com o itinerário de Mrs Dalloway num dia do verão de 1923. Um verdadeiro objeto de desejo, como tendem a ser os livros impressos nesta era de competição com o livro digital. Bom para ver e para tocar. E também para ler!
A tradução, de Tomaz Tadeu, é enriquecida com textos do próprio tradutor sobre a vida de Virginia Woolf e sobre a estética de sua ficção, além de abundantes notas e de um índice onomástico com informações sobre todos os nomes próprios (ruas, monumentos, personalidades) que aparecem no romance.

Vale a pena conferir !

http://grupoautentica.com.br/autentica/livros/estojo-mrs-dalloway/714






13 de janeiro de 2015

Mario Benedetti | La Culpa Es De Uno



Mario Benedetti / La culpa es de uno.

Quiza fue una hecatombe de esperanzas
un derrumbe de algún modo previsto
ah pero mi tristeza solo tuvo un sentido.

Todas mis intuiciones se asomaron
para verme sufrir
y por cierto me vieron.

Hasta aquí había hecho y rehecho
mis trayectos contigo
hasta aquí había apostado
a inventar la verdad
pero vos encontraste la manera
una manera tierna
y a la vez implacable
de desahuciar mi amor.

Con un solo pronostico lo quitaste
de los suburbios de tu vida posible
lo envolviste en nostalgias
lo cargaste por cuadras y cuadras
y despacito
sin que el aire nocturno lo advirtiera
ahí nomas lo dejaste
a solas con su suerte
que no es mucha.

Creo que tenes razón
la culpa es de uno cuando no enamora
y no de los pretextos
ni del tiempo.

Hace mucho muchisímo
que yo no me enfrentaba
como anoche al espejo
y fue implacable como vos
mas no fue tierno.

Ahora estoy solo
francamente
solo, siempre cuesta un poquito
empezar a sentirse desgraciado, antes de regresar
a mis lóbregos cuarteles de invierno con los ojos bien secos
por si acaso.

Miro como te vas adentrando en la niebla
y empiezo a recordarte.

9 de janeiro de 2015

Mario Benedetti ya tiene su plaza


El poeta uruguayo vivió en Madrid ante el parque que llevará su nombre.



Aquí, en el número 7 de la calle de Ramos Carrión, en la portería, una tarjeta sigue diciendo en el buzón que aquí vive Mario Benedetti.
Benedetti murió en mayo del año 2009 en Uruguay, su país, del que los militares lo echaron a culatazos morales en la época más terrible de su vida.
Esta casa fue el domicilio de uno de sus destierros, que España, entre otros países, convirtió en una estancia que él recordaría siempre con gratitud.
Ahora Benedetti no está; están sus libros de poemas, y ahí, en esta calle, sigue estando la memoria diluida del poeta. Y pronto estará, por decisión del municipio que le acogió, la plaza de Mario Benedetti. En el corazón mismo de Prosperidad.
      La ciudad lo acogió toda una década, durante uno de sus destierros

"Cuando la gente es educada deja un  r ecuerdo  hermoso", afirma su portera

La casa era humilde, las costumbres eran modestas
Cuando regresó a Uruguay dejó a sus amigos algunos objetos de recuerdo

Prado recuerda las tardes de fútbol, las conversaciones susurradas por este asmático fervoroso del Nacional y del mejor fútbol, pues el suyo fue siempre el buen gusto uruguayo por este deporte. Además, recuerda el poeta, lo distinguía la humildad. La casa era humilde, las costumbres eran modestas, y a pesar de que en los últimos años de su vida los derechos de autor arreglaron bastante su economía, seguía manteniendo ante el gasto la contención de un contable.
"A veces nos invitaba a cerveza a Chus y a mí", dice Prado, "y sacaba del enorme frigorífico una sola botella, con la que nos brindaba a los dos".

Esa sobriedad no era falta de generosidad; cuando se fue definitivamente, de modo que dejó la casa para siempre deshabitada, quiso que algunos amigos, entre ellos el propio Prado, se quedaran con algunos recuerdos suyos. "De modo que yo ahora
me afeito", dice el poeta, "con la afeitadora de Benedetti, me siento en sillas pequeñas de Mario, tomo el té en su tetera...".
La casa de Madrid se parecía a la casa de Montevideo: muebles similares, despachos similares, iguales estanterías. Chus Visor recuerda "la mecedora en la que se sentaba para recibir a las visitas o para ver la tele, el despacho que miraba a la plaza y en el que escribía sus poemas, sus haikus, sus novelas...".
Le gustaba mirar a la plaza, es cierto, pero la cruzaba solo cuando iba a comer al Vips cercano, "siempre a la una de la tarde, siempre a la misma hora, y siempre para comer lo mismo, y siempre para tomarse luego un helado de vainilla que no llevara ni rastro de almendra...".

Una vida apacible en la plaza. Y no siempre tan apacible. Juanita recuerda que hace años atracaron a Mario; había ido al banco cercano, antes de un viaje a Uruguay. Una pareja de ladrones, bien trajeados ambos, le siguieron durante toda la operación bancaria, hasta que Benedetti volvió a su propio portal y se dispuso a abordar el ascensor. Entonces, aquel caballero que escribía poemas y era más puntual que los relojes les cedió el paso, creyéndolos de buena ley.

Ya en el ascensor, abofetearon a Mario, le quitaron "todo lo que había sacado del banco", dice Juanita, y luego lo abandonaron en el rellano, huyendo a toda prisa. A él, que era asmático, le dio un ahogo fatal. Pero cuando se recuperó le dijo a Chus, su amigo:
-¡Pero les di una piña! (una trompada, dicho en uruguayo).
Fue, quizá, el peor recuerdo de sus años tranquilos en el exilio que pasó en la que ahora será plaza de Mario Benedetti.