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Crônicas do Cotidiano - Rabisco de Papel

Desenho de Iane Maria

 Já algum tempo, pensava em ter uma linha telefônica em casa. Tinha até mesmo separado um espaço na estante da sala para colocar o aparelho. 

Entrei em contato com a operadora, escolhi um plano que se adequasse as minhas necessidades e solicitei a instalação. Agora só faltava comprar um aparelho. Pensei num modelo antigo, daqueles que você precisa enfiar o dedo no discador para ligar,  sabe? Se possível igual ao que meus pais tinham em casa nos anos 80. Naquela época minha única preocupação era com a minha mãe gritando do portão de casa, que o jantar estava na mesa.

Passeando pela feira de antiguidades no vão livre do Masp, encontrei um modelo muito parecido com o que tínhamos. Até na cor creme, eram iguais. O difícil foi convencer o senhor que cuidava da barraca a me vender num preço razoável. Precisei fazer umas três ofertas até conseguir por chantagem emocional que ele topasse.

Confesso que não foi fácil discar os números com meu novo aparelho. Estava há mais de vinte anos destreinado. Depois de algum tempo o dedo da gente começa a doer... Passei a usar a velha Bic no lugar do dedo. Primeiro liguei para minha mãe, depois meu pai [eles são separados], irmãos, tios, amigos, vizinhos... Até para o dono da padaria eu passei meu telefone. Tamanha era a ansiedade de que alguém me ligasse.

Primeiro dia. [ nenhuma ligação ]

Segundo dia. [ Idem ] 

Terceiro dia e neca de pitibiriba.  

No quarto dia, entrei em desespero. Que raio de telefone é esse que não toca ! Já sei. Resolvi pedir uma pizza por telefone. Passei o número de casa e pedi que me avisassem assim que a pizza tivesse pronta. Touché!  

Esperei por quase uma hora... Cansado da demora e com fome, liguei para pizzaria. “Já estávamos ligando para o senhor”, disse a atendente.  

Fazia uma semana que eu tinha adquiro o aparelho e minha casa era silêncio. Por vezes, ligava do meu celular só para ouvi-lo tocar. Mas não era a mesma coisa. Sentia-me frustrado.

Até que um dia, finalmente, ele tocou. E seu barulho invadiu os cômodos da casa, como os russos a Polônia na segunda guerra mundial. Aquilo era Wagner para meus ouvidos.

Corro feito um maratonista nos metros finais. Ofegante, atendo ao telefone:

Alô, Alô
Boa tarde, meu nome é Ivana Martins, sou do Jornal Diário Mogiano;
Qual o seu nome, por gentileza?
Alécio     
Tudo bem com o senhor?
Tudo bem.
Que ótimo, gosto muito de falar com pessoas assim.
Posso chamá-lo de Alécio ou Senhor Alécio?
Só Alécio

Fiquei por quase dez minutos falando com a atendente de telemarketing. Não tive coragem de desligar. Era minha primeira ligação. Com o olhar distante e respostas mecânicas, lembrei dos desenhos que minha mãe fazia enquanto falava ao telefone. Naquela época, minha mãe ficava por horas pendurada ao telefone, mas sempre que a conversa se tornava desinteressante, ela gostava de rabiscar papel. 

***


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